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Após algum tempo, sem publicar conteúdos aqui no Blog, eu procurei voltar buscando retratar um tema que pudesse, ao mesmo tempo em que trouxesse à tona um fato marcante da história dos vinhos, homenageasse também uma marca admirável e que se moderniza o tempo todo.
Dedico, portanto, este post ao espetacular vinho Barca Velha, o ícone do povo lusitano. Àquele que vai muito além de um grande vinho, podendo ser considerado quase que uma espécie de entidade mitológica do Douro, além de ser um dos vinhos mais cultuados do mundo.
Para entender melhor essa lenda dos vinhos, viaje comigo até os anos 1940 para compreender como uma idéia, aparentemente maluca, se transformou no maior ícone da enologia lusitana.
A trajetória do vinho começa com o sonho do enólogo Fernando Nicolau de Almeida, nos anos 1940, numa época em que a belíssima e acidentada região do Douro só tinha olhos, prestígio e coração para o vinho do Porto, um vinho fortificado e doce. Vinhos de mesa, também chamados de vinhos tranquilos, não eram posicionados como produtos de excelência, naquela região, sendo a sua produção destinada, quase que exclusivamente, para o consumo diário dos trabalhadores locais.
Mas, Nicolau, após visitar Bordeaux/França, e estudar as técnicas de vinificação daquele lugar, retorna entusiasmado com a capacidade que os bordaleses tinham de envelhecer seus vinhos e pensou: "Por que não podemos unir elegância e longevidade, criando um vinho tinto de guarda, também no Douro".
Os desafios foram muitos e parecia mesmo impossível, a começar pelo fato de que o Douro Superior era, e continua a ser, uma das regiões mais quentes do país. Sem muita tecnologia e com um calor escaldante, as uvas fermentavam rápido demais e resultavam em vinhos pesados demais, sem elegância. Nessa época, sequer havia eletricidade na vinícola.
A solução encontrada, foi resfriar os tanques utilizando blocos de gelo que seriam trazidos do mercado de peixes de Matosinhos, na região litorânea. O transporte era feito por caminhões, em estradas de terra cheias de curvas. Ao chegar à vinícola o gelo era jogado diretamente ao redor dos tanques e assim resfriavam a fermentação. Uma verdadeira odisséia artesanal que deu vida à lendária safra pioneira de 1952, na qual foram produzidas apenas 17 meias pipas (barris de 225 litros).
O nome Barca Velha é uma homenagem direta à identidade do rio, fazendo referência a uma antiga e rústica embarcação (barca), que cruzava o Rio Douro, transportando passageiros e trabalhadores agrícolas entre as margens, bem perto da Quinta do Vale Meão, local onde as uvas eram colhidas originalmente.
Unia-se assim o símbolo dessa "balsa histórica" com a palavra "velha" que, de certa forma, trazia a promessa de que àquele vinho nascia vocacionado para vencer o tempo e envelhecer por décadas na adega.
O nome da vinícola evoca a icônica Dona Antónia Adelaide Ferreira, a "Ferreirinha", uma mulher forte, que liderou o comércio do vinho no Douro, com um olhar social muito à frente do seu tempo.
Concebido, em sua origem, na icônica Quinta do Vale Meão, hoje o berço oficial do Barca Velha bate no coração da Quinta da Leda, localizada no Douro Superior. É uma zona de solos xistosos, onde as videiras sofrem com o sol implacável, concentrando açúcares, aromas e acidez em níveis absurdos.
O Barca Velha nunca é feito de uma única casta, sendo um vinho de corte (blend) que reúne as melhores variedades nativas da região, em proporções que podem mudar de acordo com cada diferente safra.
A Touriga Franca é a espinha dorsal do vinho (40% a 50%), sendo responsável pela estrutura, cor e aromas florais. A Touriga Nacional, contribui com complexidade, aromas de frutas negras e grande potencial de envelhecimento. A Tinta Roriz, oferece firmeza aos taninos e notas de especiarias e, a Tinto Cão, sempre usada em pequenas proporções, aporta acidez e longevidade, essencial para o equilíbrio do vinho ao longo das décadas.
1) Desde o seu surgimento em 1952, em mais de 70 anos de história, o Barca Velha foi declarado apenas 21 vezes, sendo a colheita de 2015 a mais recente, lançada em maio de 2024.
2) A safra de 2008 foi a primeira de um vinho tinto português não fortificado a receber 100 pontos da prestigiada revista internacional Wine Enthusiast.3)Apenas três mestres ou enólogos chefes estiveram à frente da produção do Barca Velha, desde o seu nascimento, sendo eles:
Fernando Nicolau de Almeida, seu criador e idealizador, que moldou o perfil do vinho de 1952 até o fim da década de 1980.
José Maria Soares Franco, seu sucessor imediato, que manteve a consistência impecável e o preciosismo técnico nos anos seguintes.
Luís Sottomayor, atual enólogo-chefe. É dele a responsabilidade de provar o vinho, ano após ano, e decidir se àquela safra merece o Olimpo ou não.
A decisão técnica de declarar uma colheita como Barca Velha ou Reserva Especial é um processo longo e rigoroso, baseado exclusivamente na evolução qualitativa do vinho, ao longo de vários anos, no qual são considerados critérios e etapas dessa decisão, como:
Mesma Origem e Processo Inicial:
Ambos os vinhos nascem do mesmo lote e percorrem o mesmo caminho inicial. Eles são produzidos a partir de uvas de qualidade superior, provenientes do Douro Superior, combinando vinhas de diferentes altitudes (zonas baixas para estrutura e zonas altas para acidez e frescura).
O Fator Tempo e Provas Periódicas:
Após a vinificação e o estágio inicial em barricas de carvalho (cerca de 18 meses), o vinho continua a sua maturação em garrafa. Durante esse período, a equipe de enologia, liderada por Luís Sottomayor, realiza provas sensoriais regulares. A decisão final só acontece geralmente entre 7 a 8 anos após a colheita, sendo que é o comportamento do vinho, durante esse envelhecimento, que determina a sua rotulação como Barca Velha ou Reserva Especial.
Critérios de Diferenciação:
A distinção entre é sutil, mas fundamental para a Casa Ferreirinha:
Barca Velha: Declarado apenas quando o vinho atinge a "perfeição absoluta". Deve apresentar uma estrutura impecável, enorme complexidade e, acima de tudo, um potencial de guarda extraordinário (capacidade de evoluir positivamente por décadas).
Reserva Especial: Declarado quando o vinho é de altíssima qualidade — superior a qualquer outro tinto da casa — mas a equipe de enologia considera que ele não atingiu aquele "degrau" final de excelência ou longevidade exigido para o ícone.
A Soberania do Enólogo:
Não existem fórmulas químicas ou regras fixas; a decisão é estritamente sensorial e subjetiva, baseada na experiência e no legado dos enólogos-chefe. Se houver qualquer dúvida sobre a capacidade de evolução do vinho a longo prazo, ele é lançado como Reserva Especial para preservar a mística e o padrão do Barca Velha.
O vinho é produzido apenas em safras consideradas de qualidade excepcional pela Casa Ferreirinha. Veja abaixo a lista completa.
Década de 1950: 1952, 1953, 1954, 1957
Década de 1960: 1964, 1965, 1966
Década de 1970: 1978
Década de 1980: 1981, 1982, 1983, 1985
Década de 1990: 1991, 1995, 1999
Século XXI: 2000, 2004, 2008, 2011, 2012, 2015 (atual)
Embora, gigante na taça, o Barca Velha é um vinho que demonstra uma harmonia impecável entre força e elegância. Apresenta um aspecto visual rubi profundo que, mesmo após décadas, teima em não perder a vivacidade. Seus aromas são como um desfile de nuances, iniciando com frutas vermelhas maduras e especiarias (como pimenta e cravo), evoluindo para toques de tabaco, caixa de charuto, bálsamo e notas terrosas complexas. Em boca entrega taninos firmes, porém aveludados, com um final longo e extremamente persistente, que parece não terminar.
O segredo do seu sucesso é uma acidez vibrante que mantém o vinho incrivelmente fresco, mesmo quando aberto 30 ou 40 anos após a colheita.
O Brasil é considerado um grande mercado consumidor desse vinho, depois de Portugal. O preço da garrafa de 750ml, para a safra 2015, situa-se na faixa de R$ 9.200,00 a mais de R$ 10.800,00.
Reino Unido, Estados Unidos, Angola e mercados de luxo asiáticos são outros mercados de consumo importantes.
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Até breve!
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